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Cem dias entre céu e mar

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O domingo terminou sem que pudesse tocar nos remos. Fiz uma tentativa de ir ao trabalho logo cedo, mas ondas desencontradas que vinham estourando de toda parte  indicavam ser mais prudente passar o fim de semana em casa .Paciência . Poderia descansar um pouco e, quem sabe, começar a organizar a bagunça instalada nas sacolas e nos pequenos  compartimentos do barco que ainda não tinham sido visitados.

Parecia difícil ter que permanecer o dia todo encerrado num espaço onde mal podia me sentar e onde a cada hora precisava abrir os respiros para permitir a entrada de ar; mas, estranhamente,  eu me sentia bem ali.

Ainda que o mar parecesse uma pedreira em febril atividade, completamente cinza, com explosões sucessivas e britadeiras ensurdecedoras que não paravam, dessa vez o vento soprava firme, de su-sueste, e me jogava em direção favorável. Sabia que mesmo  sem remar deveria avançar durante o mau tempo e, meio em dúvida, decidi pela primeira vez recolher a âncora-de-mar. Havia o risco de, sem ela, ser   surpreendido por uma onda de lado e capotar, mas resolvi arriscar. 

Balançando como um cabrito, o barco passou a deslizar  com o temporal, sem se importar muito com as pancadas de ondas sobre  o convés. Gostei da experiência, e durante a noite a âncora continuou guardada num compartimento externo, sob o carrinho de remar, que apelidei de "bodega 5", em homenagem ao porão principal do Santiago del Estero.

A imagem das capotagens estava gravada no meu pensamento, e o medo de uma nova era grande. Deitado, não parava de calcular: se em três dias eu capotara três vezes, agora, após vinte e dois dias no mar, eu estava com um saldo devedor de dezenove capotagens que, às vezes, me tirava o sono. Porém, a sensação de progredir, ainda que acompanhado de uma tempestade, era deliciosa e, mesmo preocupado, adormeci.

De madrugada, ao tocar o despertador avisando que era hora do café, levantei-me com disposição de sair de imediato para o trabalho. Mas o tempo piorara bastante, e o vento, zunindo na anteninha de VHF que desesperadamente tentava permanecer em pé, me fez lembrar de umas páginas de La Fontaine que li quando garoto: a fábula  "O carvalho e o junco".

O imponente carvalho, que jamais se curvava diante do vento, caçoava do frágil junco que. a cada lufada, deitava ao chão; até que, num dia de vento mais forte, o teimoso carvalho, não cedendo a uma força maior que a sua, tombou, arrancado do solo. E o junco, passado o vento, ergueu-se e continuou a crescer.

Não havia por que insistir em enfrentar a violência do mar.

O barômetro, desde a véspera bastante baixo, continuava lentamente a descer e indicava que tão cedo as condições meteorológicas não melhorariam. Eu estava sendo ultrapassado por um centro de baixa pressão. Entendi que de nada adiantaria medir braços com algo maior que as minhas forças, e que, em vez de teimar com o tempo e correr o risco de quebrar o barco, deveria ser paciente e saber aguardar o momento certo de continuar em frente.

Negociando com o mau tempo, sem perder de vista meu objetivo, haveria de atravessar aquela situação. Assim, mais um dia deitado em meu compartimento de espera se anunciava. O que eu nunca poderia supor é que essa espera seria tão longa.

Pois exatamente sete dias se passaram até que pudesse voltar a remar; sete dias em que fiquei trancado na cabine, sacudido por ondas enormes, flutuando em meio à espuma revolta do mar. Fechado.Sem poder sair. Simplesmente esperando. Ouvindo ondas que vinham arrebentando de longe sem saber se me alcançariam, ou sendo surpreendido por golpes de mar que à noite surgiam do nada. . Situação de aspecto tenebroso, uma verdadeira tragédia!

Pois não foi. É engraçado, mas confesso que sinto saudades daquela semana. Pode parecer incrível, mas poucas vezes na minha vida fui tão feliz.  

A angústia passou logo nos primeiros dias, e eu me convenci de que nem as piores tempestades fariam virar o barco. Ondas  alcançando sete, às vezes oito metros, curtas e difíceis, revelavam um mar nitidamente mais agitado do que no triste dia das capotagens. Mas, com o peso melhor distribuído e fazendo uso dos tanques de lastro interno, o comportamento do barco foi  exemplar, e em nenhum momento tive que soltar as âncoras-de-mar para estabilizar a deriva.

Não passei naqueles sete dias por um momento sequer de monotonia, tristeza ou desespero. 

Pois nada é mais certo do que a chegada do bom tempo após uma tempestade que parece interminável. 

Fonte: Amyr Klink

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