Sinta essa liberdade
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Tudo aquilo que está ainda invisível, mas consideramos como existente é fé - Masaharu Taniguchi
Leitura Boa
Ele já havia sido guia na Antártida, remado um bote de madeira da Sibéria ao Ártico e pedalado 10 mil quilômetros através da Rússia e da Mongólia. Que mais o australiano Tim Cope poderia fazer? Passar mais de três anos percorrendo, a cavalo os caminhos dos grandes guerreiros mongóis. (CASSIO WAKI)
Era uma aventura que nenhum ser humano havia pensado em repetir em oito séculos. Entre junho de 2004 e setembro de 2007, o australiano Tim Cope, 28 anos, refez a rota de conquista do Império Mongol, que reuniu 3 bilhões de pessoas da estepe da Mongólia á Hungria, passando por Cazaquistão, Rússia e Ucrânia, sob a liderança do famoso Genghis Khan. Tim passou três anos percorrendo 10 mil quilômetros a cavalo, com temperatura entre -50° e 54°C, dormindo em mais de 160 casas de famílias que o acolheram, fugindo de lobos e reunindo histórias que o ajudaram a conhecer o que o império de 800 anos atrás deixou na vida de culturas tão distintas. No fim de setembro, recém-chegado da expedição, Tim reservou um tempinho para conversar com a Go Outside.
Go Outside: De onde surgiu a idéia de percorrer a rota de Genghis Khan?
Tim Cope: Em 2000, eu estava no fim de uma expedição de bike de Moscou (Rússia) a Beijing (China). Ali, no deserto de Gobi, na Mongólia, fiquei incorfomado: o terreno era uma vasta estepe, mas sem nenhuma trilhazinha. Não agüentava mais empurrar a bike na areia quando ouvi o som do galope de cavalos vindo em minha direção. Eram os nômades. Os mongóis são um dos únicos povos no mundo a preservar o nomadismo e foi por meio dele que conquistaram o maior império já visto na Terrra. Comecei a divagar sobre o assunto. Será que ainda haveria uma ligação cultural por toda essa estepe que se estende até a Hungria? Como viviam os nômades da época? Será que ainda haveria resquícios do povo mongol e de seu grande líder? A única maneira de saber era encarar a rota de Genghis Khan como um típico nômade . A aventura só começou quatro anos depois dessa divagação e do sonho de escrever um livro e fazer um documentário sobre a vida, a cultura e a história da estepe.
Como você se preparou?
Primeiro eu enfiei a cara em livros, guias e internet. Pesquisei como fazer uma viagem a cavalo. Sou fluente em russo, mas tive de pesquisar os jeitos, trejeitos, dialetos das regiões onde iria passar, e aprender um pouco da história do povo nômade da Mongólia. A segunda parte da preparação foi economizar cada centavo e conseguir um patrocínio. De porta em porta, prometia exposição das marcas em meus livros, documentários, no site da expedição, jornais e tudo o que podia. Para minha boa surpresa não foi tão difícil, pois devido ás outras expedições que fiz , parece que eu tinha alguma credibilidade.
Por que percorrer os 10 mil quilômetros a cavalo?
Se eu queria fazer a rota como os nômades a fizeram, meu transporte tinha de ser o cavalo. Além disso, é um animal que faz parte da cultura da estepe, tendo um papel importante em suas vidas, já que é fundamental ter um meio de transporte. Também contou o fato de o cavalo intensificar o sentido de aventura. Eram três cavalos: um para mim, um para levar a comida e outro para meus equipamentos. E verdade seja dita: eu praticamente nunca havia montado num cavalo.
Qual era o peso total que carregou?
Meu peso fixo era de 200 quilos. A comida do cavalo ocupava 50 quilos e o restante se dividia em equipamentos de selagem, filmagem, camping, inverno, primeiros-socorros e outras coisinhas mais.
Qual a principal característica cultural que encontrou durante a rota?
A hospitalidade recebida durante a expedição foi surpreendente, principalmente no Cazaquistão. Há uma tradição no país que diz que um viajante é bem-vindo por três dias em sua casa para comer, beber e descansar. Sá após esse período o anfitrião se acha no direito de perguntar o que o forasteiro faz e de onde vem. Um exemplo disso foi no inverno de 2004 para 2005, quando a temperatura era de -35°C. Minha barraca estava rasgada, eu tinha fome e estava perto de uma hipotermia. Consegui chegar ao vilarejo de Akbakai, onde cuidaram de mim por quase três meses. Bem que os mongóis dizem que "na estepe, uma pessoa sem amigos é tão frágil como o dedo mínimo. Já uma pessoa com amigos é tão forte quanto a própria estepe". Eu não estaria aqui se não fosse pelos amigos que fiz.
O que você comia?
Eu tinha uma alimentação típica da Era Genghis Khan: leite de égua ou camelo fermentado com carne seca de carneiro, conhecida como borts. É um negócio tão compacto que os mongóis afirmam que conseguem carregar um carneiro inteirinho dentro do bolso. Outra estratégia era carregar coalhada seca sólida, o que eles chamam de aral. Essa alimentação foi estratégica para percorrer longas distâncias com o mínimo de peso e volume. Talvez seja um dos segredos para conquistar parte do mundo a galope.
Foi um choque cultural?
Cresci na Austrália, com uma alimentação sem carnes por opção familiar. Nessa expedição tive de aprender a viver basicamente delas, pois na estepe não crescem grãos. É uma terra improdutiva que me levou a comer salsichas de cavalo, carnes de camelo e cordeiro, especialmente no Cazaquistão, e banha pura de porco na Rússia e Ucrânia. Percebi que é um povo que tem consciência de que se não fossem por esses animais, seria impossível sobreviver. Por isso a cada animal sacrificado é feito um ritual de gratidão pela comida que será servida.
Você sentia medo?
Claro. Havia muitos riscos e eu tinha plena consciência de qualquer vacilo poderia custar a minha vida. Por exemplo, ficar sem água no deserto, me perder numa tempestade a -40° , ser cercado por lobos famintos, perder meus cavalos. Tive que passar uma noite sem dormir para manter o fogo aceso e espantar a matilha de lobos que rondava meu acampamento. Disse que precisei de três cavalos, mas na verdade precisei de mais. Um caiu da ponte, outro saiu em disparada, outro adoeceu. Um deles quase de afogou num pântano, mas foi possível salvá-lo. Tive três cavalos roubados na calada da noite, mas por algum milagre, consegui recupera-los.
Em qual momento você desejou estar em casa?
No Natal de 2004, quando estava esfomeado em alguma parte do Cazaquistão. Fazia -30° e meu cavalo teve um sério problema na pata e não conseguia prosseguir. Mas consegui chegar num lugar onde tinha um amontoado de gente e eles cozinharam pombos - esses de rua mesmo - para eu comer. Nesse lugar, seqüestraram meu cachorro por dez dias. Foram momentos difíceis.
Em que momentos você se sentiu feliz pela empreitada?
Quando estava livre pela estepe com meus três cavalos, seguindo um ritmo compassado pela relva da manha de outono. O silêncio. Meu cachorro Tigon dando piques de lá pra cá sem parar. Impossível imaginar algo melhor. Lembro de outra boa sensação: depois de meses andando sozinho pela estepe fui convidado por uma família nômade para repousar. Foi um inigualável senso de acolhimento familiar.
O que você espera que a expedição leve ás pessoas?
Espero que eu consiga motivar os jovens, principalmente, a explorarem a história e a cultura de seus países, aumentanto a percepção de que existe um mundo enorme lá fora. Espero isso não só das pessoas que acompanharam a expedição pelo site ou que lerão sobre ela no livro, mas também das que vivem nessa região.
Você imaginava que a expedição teria essa repercussão?
Sonhei que minha jornada pudesse interessar a pessoas que quisessem descobrir a conexão que estes povos possuem a agregar valores da cultura nômade. Acho que consegui. Agora preciso trabalhar: escrever o livro e editar o documentário os quais me propus a fazer.
Quando poderemos ler o livro?
Ainda é cedo, mas é possível ter uma idéia de toda a expedição no meu diário virtual , no timcopejourneys.com. Também vou escrever um livro infantil sobre meu cachorro Tigon, que me acompanhou por quase toda a rota, o Destemido Cão Viajante.
Qual a próxima expedição?
Depois que terminei essa viagem fui para a Romênia com meu irmão. Cavalgamos pelas montanhas da Transilvânia para relaxar um pouco. Mas tenho o sonho de viajar da Índia até a Irlanda, pesquisando as origens dos povos ciganos e como vivem atualmente. Também andar pelos desertos com os beduínos, passando pelo Tibete, China. Ah tanta coisa...
O IMPÉRIO MONGOL DUROU DE 1206 a 1405 sob a regência do líder Genghis Khan. Ele formou o segundo maior território continuo do mundo, com cerca de 33 milhões de quilômetros quadrados (o Império Britânico somou 37 milhões ) e uma população total de 3 bilhões de pessoas - um terço do mundo! - das Coréias, de toda a China, sul da Rússia, Oriente Médio e Leste Europeu. Essa vasta área foi conquistada por um exército disciplinado, ágil e intelectualizado formado nômades, artesãos, engenheiros e filósofos que Khan reuniu para criar armas, estratégias e técnicas para enfrentar as intempéries climáticas. Assim ele conquistou e se estabeleceu nos territórios. Seus soldados montavam uma catapulta em pouco tempo, utilizando as árvores do local, e carregavam o mínimo de equipamento possível - ao contrario de outros povos que se armavam até os dentes - para ganhar mobilidade e velocidade. No campo da política, as normas eram rígidas e não raramente terminavam com a pena de morte. Por outro lado, havia liberdade religiosa, com um corpo ecumênico com lideres budistas, cristãos e mulçumanos. Para alimentar o império havia um intenso comércio de leste a oeste, norte a sul do amplo território e, também, com a Europa, criando, por exemplo, a Rota da Seda. Khan e alguns de seus sucessores conseguiram manter um período pacifico chamado Pax Mongólica. No fim do século 14, o império perdeu força para os chineses e se desintegrou. A Mongólia só ganharia sua independência da China em 1911.
Fonte: Revista GoOutside

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