Sinta essa liberdade
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Existe prazer nas matas densas. Existe contemplação e encantamento nas alturas. Existe convivência sem que aja intromissão no mar profundo e musica em seu ruído. Ao homem não amo pouco, porém muito a natureza - Lord Byron
Leitura Boa
Cogitamos grandes nomes já reconhecidos no mundo da aventura , mas acabamos por nos surprender com a sutileza das belas lições de vida dessa aventureira comum.
Depois de passar por um sério problema pessoal, a ex-auditora Katia Esteves descobriu nas peregrinações um terapia "prazerosa e infalível", como ela declara. Hoje, aos 58 anos, já percorreu 19.168 quilômetros em 11 anos de caminhadas pelo mundo e virou propagandista da cura pelos próprios pés, através do Projeto Momento Único.
Texto: Lilian Caminha e Camila Fróis
Aventura & Ação: Como você conheceu o prazer das peregrinações?
Katia Esteves: A peregrinação surgiu em 1998, quando eu tentei, pela décima quinta vez, me suicidar. Fui durante muitos anos auditora-sênior, depois diretora financeira de uma empresa de porte médio. Quando ela fechou as portas abruptamente, fiquei desempregada. Isso aos 40 anos, quando, no mercado de trabalho, as pessoas são consideradas inaptas. Os anos de busca vã pelo retorno ao trabalho me marginalizaram da sociedade. Logo entrei em uma depressão pesada. Foram oito anos de busca por apoio médico e psicológico para reaprender a lutar, mas a luz não reaparecia. Foi aí que percebi que deveria buscá-las com meus próprios pés. Comecei a me procurar, caminhando, caminhando, e me encontrei já no primeiro lance: o Caminho de Santiago. Demorei 34 dias para fazer 850 quilômetros.
A&A: Você fez o caminho sozinha?
K.E: Sim. Aliás, até agora fiz todos os caminhos sozinha. Em 2009, eu fiz com o Henrique Brasil, um amigo e voluntário que me ajudou a fazer levantamento de dados do caminho (quilometragens, lugares onde ficar, etc). Graças a isso, o site Momento Único, hoje oferece informações atualizadas e precisas para os caminhantes.
A&A: Antes de começar a caminhar, você costumava ter contato com a natureza?
K.E: Nenhum. Eu fumava três maços de cigarro por dia. Não bebia nada, mas fumava muito. Trabalhava 14 horas por dia, chegava em casa e ainda tinha criança para cuidar, nem sequer dava uma volta. Eu era a própria "dondoca". Ia sempre de carro para a casa, para o trabalho, para todos os lugares. Eu nunca tinha caminhado.
A&A: Por que decidiu estimular outras pessoas a fazer a mesma experiência?
K.E: Primeiro eu descobri em 1999 - que era considerado o ano santo para muitas religiões - que eu estava muito enferma. Eu já tinha caminhado quase 750 km no Caminho de Santiago e faltando 100 km eu caí sem força nas pernas. Quando cheguei em São Paulo, fiquei vivendo um período péssimo, indo e vindo para o hospital, mas ninguém sabia o que eu tinha. Na verdade, estava sofrendo com um bócio interno na garganta, que era uma doença ruin. Mas em 2000, obtive uma cura durante uma nova peregrinação no mesmo caminho, em um trecho chamado Caminho Aragonês. E foi dai então que eu prometi que dali pra frente eu seria voluntária, para orientar as pessoas, fazer palestras gratuitamente, ensinando como se coloca uma mochila para caminhar.
A peregrinação em si é quando não se caminha apenas como turista. Ela implica em uma conotação diferente do caminhar, porque a cada passo que você dá
você vai semeando coisas boas, mesmo que não tenha consciência disso. Quando chega nos 250 quilômetros, você olha para trás e vê que caminhou tudo isso e nem percebeu, daí sente que seu organismo está produzindo endorfina, pela felicidade de estar conhecendo gente do mundo todo, além de paisagens
belíssimas. Depois acabamos refletindo sobre o que acertamos na vida, sobre o que erramos, cai uma série de fichas. Quem faz peregrinação, seja aqui no Brasil, ou no exterior, com certeza, volta mudado e para melhor. Em geral, vivemos em caixinhas: a sala onde a gente trabalha, a nossa casa, a nossa sala da faculdade, onde vamos acumulando problemas profissionais, familiares e afetivos. Na maioria das vezes, estamos muito presos nas questões quantitativas do ter e esquecemos da importância do qualitativo do ser, esquecemos quem verdadeiramente somos. Então, muitas vezes os caminhos nos fazem aprender que somos muito mais do que imaginávamos.
A&A: Teve algum caminho que foi mais marcante? Por quê?
K.E.: Na verdade, tiveram muitos caminhos que me marcaram muito:
De Oviedo (Espanha) - outro caminho até Compostela. É um caminho dificílimo, mas eu toquei a mão de Deus todos os dias. Eu andava sete quilômetros, jogava a mochila no chão e falava "não vou continuar mais". Em algumas subidas mais íngremes (com 4 km de ladeira) eu pensava na minha mochila de 12 kg
e ficava desesperada. Mas quando olhava para cima e via aquele sol, com aquela luz ilimitada, pensava também que não podia ter limites e prosseguia meditando. Em determinado momento, caí de joelhos para agradecer por tanta beleza que estava vendo.
A&A: O que te dá mais satisfação na atividade que exerce?
K.E.: Poder, a cada passo, a cada dia que passa, desejar e fazer e experiência de um mundo melhor. Faço meditação e, a cada dia, vou me dedicando a alguma coisa. Aos meus amigos, aos meus inimigos, à paz, e assim vai. Então me sinto como um carvalho, e todas as vezes que eu tenho os meus problemas, seja de qualquer ordem, as minhas raízes vão se afundando cada vez mais na terra e isso me fortalece.
Já atingi 19.168 km andando e para mim isso se tornou pouco, então eu tenho agora o objetivo de caminhar a mesma extensão na volta ao mundo, serão aproximadamente 44 mil km.
Não existe idade para se caminhar. Mas é preciso atitude, mais do que apenas decisão. A decisão pode ser revogada a qualquer momento, mas quando você toma uma atitude, não tem como voltar atrás. O caminho é aberto a todas as pessoas que se determinam a fazê-lo.
"Um dos meus sonhos é que as pessoas se conscientizem que se nós plantarmos, todo dia ao acordar, um pensamento do bem, podemos transformar a nós mesmos, podemos transformar os outros e podemos transformar o lugar onde estamos" Katia Esteves
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Fonte: Aventura & Ação
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